quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Pet Sematary", o tabu da morte e o canto da sereia


Stephen King é um nome que conheço desde a infância, já que é o autor preferido de minha mãe - que escolheu chamar nosso primeiro cachorro de Bangor.

Eu estava fazendo algumas pesquisas sobre criaturas fantásticas na wikipédia e acabei caindo no verbete de Pet Sematary, considerado um de seus melhores livros.  Li a sinopse, vi como terminava a história, vi que havia um filme sobre ela ("O Cemitério Maldito" - 1989) e, mesmo assim, não me saiu da cabeça. Vejam bem: eu sabia como terminava o livro! Conhecia de antemão o enredo! Mesmo assim, quis ler. Mais do que saber a desventura dos Creed, precisava ler nas palavras do autor - o que, em se tratando do sr. King, faz toda a diferença.

Quando faço resenha, eu me empenho em não dar spoilers, mas não será o caso desta - porque comecei a leitura conhecendo todo o roteiro e, mesmo assim, a qualidade dela não caiu. Pelo contrário: essa história conseguiu me visitar em sonhos por semanas, mesmo após a correria do dia-a-dia!

O livro se chama, em português "O Cemitério"; uma tradução literal do original seria "O Simitério de Bichos" e, pensando nisso, pergunt0-me ainda por que fui ler esse livro - de um cemitério de bichos não poderia vir coisa boa. Assim que terminei a leitura, me bateu não só a famigerada "depressão pós-livro" como um arrependimento danado de ler página por página e deixar essa história impregnar minha cabeça! hahaha

[Quando acabei o livro, nem fiquei com medo de dormir à noite ou de ser visitada pelos mistérios da história, juro. Meu pensamento foi mais no sentido dela "ai, essa bagaça colocou feito chiclete na minha cabeça, agora só vou ter pesadelos com isso". Mas só fui sonhar com o livro na noite seguinte.]

Como a maioria dos livros do King, é sobre pessoas normais colocadas em situações macabras - situações no frio e distante Maine, estado de origem do autor. É bastante interessante como, em determinado momento da história, uma das personagens, completamente envolvida pelo ápice do horror da trama, passa por uma placa de "Jerusalem Fallmouth" e pensa: "nossa, que nome gozado para uma cidade"; os fãs notórios logo sentem calafrios, afinal, é o palco dos infortúnios descritos em "Salem's Lot". Ainda sobre as referências ao cenário King, o velho Crandall comenta sobre uma epidemia de raiva que inclusive atingira um São Bernardo, levando-o a matar quatro pessoas - qualquer semelhança com Cujo não é coincidência.

Assim como não tentei esconder o enredo nesta resenha, também não tentei encurtá-la justamente porque queria analisar muitos aspectos da história. Para tornar a leitura mais fácil, dividi o post em seis partes:

  1. Quem é adulto na família Creed?
  2. O Simitério de Bichos
  3. Como os Creed lidam com a morte
  4. O outro cemitério de bichos
  5. Hey, ho, let's go!
  6. "Você pode ouvir sons - disse Louis - Sons parecidos com vozes. Mas são apenas as gralhas ao sul, lá para os lados de Prospect. O som chega até aqui. É engraçado."

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Quem é adulto na família Creed?


Louis Creed muda-se com sua esposa Rachel, os filhos (Eileen, de cinco anos, e Gage, de quase dois) e o gato da garota, Winston Churchill (Church), para uma cidadezinha do Maine chamada Ludlow. A família vem da próspera Chicago (Illinois) para que Louis, que é médico, possa trabalhar no campus universitário de Orono (Maine). Tomando a frente na mudança de cidade e de estilo de vida, Louis acaba adquirindo uma casa grande, de madeira branca, colonial, com um belo jardim e um bosque aos fundos - que ele está prestes a apresentar à esposa e aos filhos.

Uma das coisas interessantes que o King traz é uma descrição subjetiva do lugar. Ao contrário de seu amigo George Martin, ele não é nada detalhista; oferece alguns aspectos, mas o que predomina em sua descrição é o sentimento (bem como as sensações) - e é a partir disso que você visualiza a senhorial casa dos Creed. Ele não impede o leitor de imaginar - é como se plantasse uma sementinha no interior da sua mente e você mesmo fosse o responsável por regá-la. Muitos autores não fazem isso, extraindo o fator imersão de descrições prolixas e detalhadas das paredes, dos ornamentos, de luminosidade. King simplesmente não precisa disso.

A história se divide em três partes: "O Simitério de Bichos"; "O Cemitério Micmac" e "Oz, O Gande e Teível". "O Simitério de Bichos" é, em minha opinião, a mais tranqüila; "O Cemitério Micmac", a mais angustiante; já "Oz, O Gande e Teível" beira o nonsense.

Logo na primeira cena, a gente já é apresentado à vulnerabilidade (humana) que habita cada um de nossos heróis não muito heróicos; como em "O Iluminado", King traz uma família jovem, imatura e inexperiente demais: no caso, estão todos assustados diante de tanta mudança, cansados da viagem, chateados por deixarem Chicago; Rachel, que é adulta, chora profusamente; Gage, um bebezinho em seu colo, chora de estresse, e Eileen, diante do desalento da mãe, também abre o bué. E aqui temos um padrão da relação entre Louis e Rachel que aparecerá até o final: embora ambos sejam um casal adulto com filhos pequenos, Louis é o responsável por manter a saúde e a sanidade no relacionamento - é o papel delegado a ele, ser o porta-voz da sensatez. Foi ele quem decidiu se mudar devido a uma oportunidade de emprego para ele; foi ele quem escolheu sozinho a casa para a família, fazendo da mudança uma grande surpresa inclusive para a mulher. É ele quem cuida dela.

Ou, pelo menos, é nisso que o autor quer que você acredite.

Longe de ser uma estrutura familiar distinta da que se repete em nossa sociedade há muito tempo, percebemos como ela é quebradiça; quando a família inteira chora, nem Louis quer ser o adulto da casa, imediatamente fantasiando abandonar a família à beira da estrada, fugir, criar uma identidade falsa e trabalhar como médico da Disney. Não tem adulto naquele carro que se aproxima de Ludlow. E isso tanto é verdade que o primeiro fato contado no livro é de que Louis, que crescera sem pai, nunca imaginara encontrar, aos trinta e cinco anos, alguém que se aproximasse de um - mas encontraria essa figura em seu futuro vizinho, o velho Jud Crandall.

Acalmados os ânimos, a família chega à bela casa. A primeira tarde ali parece prenunciar um período terrível: os dois filhos se machucam - um rala o joelho e o outro é picado por uma abelha. Contudo, o pior estaria por vir: a casa se localiza diante de uma estrada - e não de uma rua convencional - por onde passam, todos os dias, dezenas de caminhões rumo a uma fábrica de fertilizantes local, Orinco. E os Creed têm duas crianças pequenas e um gatinho. É, já dá para perceber que o combo "estrada movimentada + criancinhas + gatinho" não é uma combinação lá muito agradável.

Entrementes, Jud Crandall e sua esposa, Norma, são um casal de oitenta anos que sempre viveu ali, na casa vizinha (do outro lado da estrada), e logo acolhem a jovem família; tratam dos ferimentos das crianças, explicam a rotina daquela cicadezinha, oferecem um lanche, uma cerveja e boas histórias. Rachel, meio desconfiada, até gosta de Norma, mas a grande identificação surge entre Louis e Jud - Louis logo confia naquele homem como se ele fosse um pai que nunca teve. E é essa relação de confiança o substrato dos acontecimentos em Pet Sematary.


O Simitério de Bichos 


Uma das curiosidades da nova casa consiste num caminho nos fundos que desaparece entre os bosques. É Jud, munido de seu vasto conhecimento sobre o único lugar onde residiu na vida, o porta-voz do mistério: aquele seria um dos muitos caminhos que levaria ao Simitério de Bichos, lugar para onde ele leva a família Creed em uma animada expedição.

Aqui já dá para saber que o lugar será palco de eventos assustadores, mas, versado no suspense, Stephen King nos dá uma prévia do local de modo despretensioso, à luz do dia, com toda a família reunida numa excursão tranqüila!

O Simitério tem esse nome devido ao erro de grafia das crianças (de Ludlow e região) que mantêm o lugar, capinando o mato e cuidando das lápides improvisadas para seus animais de estimação; gerações inteiras enterraram seus desafortunados animaizinhos ali - até mesmo o octogenário Jud mostra o túmulo do seu cachorro, Spot. As lápides, feitas de sucata e pedaços de madeira, estão dispostas em espiral numa clareira cercada por uma hera densa e perigosíssima que impede qualquer tentativa de travessia; de fato, a única parte livre de hera é formada por uma grande barreira de imensos troncos amontoados de forma nada convidativa; escalá-los implica num convite para se machucar seriamente caso um deles deslize. Contudo, ao espiar curiosamente por entre os troncos, Louis é invadido pela sensação de que a trilha não só não termina no Simitério como continua além desses troncos - dando a impressão de que os troncos não estão ali por acaso, talvez obstruindo uma possível passagem. 

A única pessoa que não parece à vontade na excursão é Rachel, novamente demonstrando a fragilidade de uma pessoa que precisa a todo momento do cuidado do marido: ela não gosta de nada relacionado à morte. Visitar um cemitério de animais, ainda que à luz do dia, não lhe parece promissor.

E claro que a gente sabe o que pode sair da visita ao Simitério de Bichos: Eileen logo questiona o pai da possibilidade de Church, seu gatinho, morrer.

[Bárbara, por que você encasquetou de ler um livro no qual um gatinho pode de fato morrer e sabendo que o autor não poupa animais?]


Como os Creed lidam com a morte


Eileen mostra-se angustiada durante poucos dias após a visita ao Simitério dos Bichos, temerosa de perder Church, e Rachel não gosta disso.

Louis e Rachel demonstram estabelecer relações muito distintas com a morte devido à sua história pregressa. Louis experimentou a perda súbita de uma prima querida aos doze anos; para ele, a morte não só é um processo natural como um tema a ser devidamente abordado com crianças. Como médico, lidou com a morte e o sofrimento diversas vezes em hospitais de Chicago.
"Escute, Rachel, não há nada de errado se uma criança descobre alguma coisa sobre a morte. Na realidade, acho até que é necessário que isso aconteça."
Rachel não aceita a morte de forma alguma. É um evento que ela repudia, ignora e nega. Para ela:
"A morte não tem nada de natural. Nada. Como médico, você devia saber disso."
Para Rachel, a morte é algo repugnante, sujo e, conforme ela mesma diz a Louis, um evento antinatural.

Esse discurso se manifesta com muita intensidade em nossa sociedade, especialmente no que se espera da comunidade médica, para quem a morte, freqüentemente, é vista como fracasso ou derrota. Além disso, somos convidados a questionar se um dos atrativos da figura de Louis para Rachel não residiria justamente no fato de ele ser médico - afinal, conheceram-se quando ele estava na faculdade, tendo ela inclusive trabalhado muito para ajudá-lo a pagar as mensalidades. Dentre muitos possíveis atrativos encontrados em Louis, não seria um deles a possibilidade de se casar justamente com alguém que teria o poder de enganar aquilo que ela se esforçava de todas as formas para evitar? O que seria estar casada com um médico para uma pessoa que não apenas nega a naturalidade da morte como acha sensato escondê-la dos filhos e perde completamente o controle emocional ao falar sobre o assunto?

É como se Louis condensasse em si a figura de "homem protetor/grande patriarca/médico detentor do supremo saber sobre o corpo". Sempre que os filhos mostram sinais de mal-estar - possíveis sintomas de alguma doença - a primeira atitude dela é empurrá-los aos braços de Louis para ele resolver a situação; nesse ínterim, parece confiar na figura condensadora de máxima potência representada por ele. E Louis adere a esse personagem que lhe é imposto, cuidando dos filhos e de Rachel nos momentos de crise - por exemplo, durante as epidemias infantis.

Quando Louis relata a discussão para o casal de vizinhos, Norma como o tabu da morte teria substituído o tabu do sexo; quando a morte era natural, o sexo não era discutido com as crianças. Atualmente, segundo Norma observa-se o contrário: Rachel, por exemplo, confessadamente não se furtaria a explicar aos filhos a origem dos bebês, mas acredita seriamente que morte não é um tema a ser abordado com crianças.

[O que é um ponto interessante discutido por estudiosos como Philippe Ariès.]

Essa discussão, que resulta no aborrecimento de Rachel e no refúgio de Louis na casa vizinha, reproduz o tabu da morte que vemos hoje. Vivemos em uma época em que a morte não é tão visível e a longevidade tem se prolongado; as condições de saúde da população, de forma geral, é melhor se comparada a cem, duzentos ou trezentos anos atrás, de modo que o falecimento deixou de ser um evento cotidiano. Os moribundos deixaram de ficar em casa, rodeados pela família, para serem alocados hermeticamente em hospitais. Vivemos um cotidiano ignorando nossa única certeza, agindo como se ela sequer existisse, de modo que, quando se faz presente, acaba por evocar um estranhamento. Estranhamos rituais fúnebres de outras gerações e não sabemos como falar de pessoas falecidas a seus parentes. Afastamo-nos desse tema. A morte, numa sociedade cultural e tecnologicamente parecida com a estadunidense (da qual origina o livro), foi banida como algo sujo, repulsivo, ignorável.


É interessante notar que, para Rachel, a morte não é natural. Ela atribui essa certeza à experiência que teve com a irmã Zelda, aos oito anos. Sua irmã (dois anos mais velha) contraiu meningite e foi confinada num quarto de fundos, onde foi cuidada pelos pais e por Rachel. A doença progressiva e duradoura de Zelda ocasionou um ambiente de sofrimento prolongado, em que a criança adoecida sentia dor física, rejeição, impotência e frustração. Ela se via ficar mais e mais deformada - e rejeitada por seus familiares. Ao mesmo tempo em que a família cuidava zelosamente dela, involuntariamente expressava uma tonalidade de repulsa pela condição da menininha, fazendo-a se sentir desamparada e retaliar as pessoas ao redor pelo que lhe ocorria - assim, de maneiras sutis, ela assustava a própria irmã, que se revezava com os pais para alimentá-la e limpá-la. E Rachel, muito criança, sentia-se culpada por desejar secretamente a morte da irmã e o fim de todo aquele sofrimento - e essa culpa retornava como medo de ser (magicamente) punida com a mesma doença que tanto repudiava. A mesma doença que a família, apesar do zelo, fazia questão de esconder - a moléstia e a iminência da morte aqui aparecem, novamente, como algo sujo.

Em suma, a Rachel criança sentia dor pelo sofrimento da irmã e, ao mesmo tempo, medo e repulsa por seu estado; e Zelda, desamparada e frustrada, retaliava sutilmente a repulsa da irmã.

Esse espetáculo atingiu seu clímax à luz da morte de Zelda na Páscoa, momento em que foi deixada aos cuidados de Rachel por algumas horas. Durante a crise, Rachel tentou socorrê-la, dando-lhe tapas nas costas e virando seu corpo - em vão. Ela se apavorou a ponto de esbarrar no quadro preferido da irmã, derrubando-o - um quadro do mágico de Oz, "O Gande e Teível" (para Zelda) - e correu, aterrorizada, pelas ruas do subúrbio até ser socorrida por uma adulta conhecida.

Na época, Rachel sentiu-se entristecida pela morte da irmã e, ao mesmo tempo, satisfeita - uma ambivalência que lhe despertou temores profundos. Sentia-se satisfeita por ter os pais apenas para si e não precisar alimentar a irmã - ou mesmo vê-la -, de modo que esses sentimentos afloravam por meio de pesadelos, noites insones e dores físicas que lhe acresciam a certeza de uma punição iminente. Afirmava que as dores que sentia pelo corpo eram sintoma de meningite, mas os médicos a acalmavam, explicando se tratar de fadiga muscular em virtude dos esforços de salvar Zelda. Lembrando: Rachel era uma criança de oito anos quando tentou socorrer a irmã.

Os adultos ao seu redor não reagiram de forma acolhedora ao pânico que sentia: como os pais haviam perdido Zelda, familiares e conhecidos culpavam Rachel por ser uma "filha má" e não se comportar adequadamente enquanto os pais experimentavam o luto.

Dessa forma, a morte, para Rachel, esteve tão carregada de dor que ela não encontrou recursos para naturalizar esse processo. Como naturalizar algo tão errado, tão sofrido, tão apavorante e digno de vergonha quando até mesmo os pais se esmeravam para ocultar o ocorrido?

No momento posterior aos fatos já narrados, em que ela finalmente encontra coragem para expor essa miscelânea de emoções e experiências ao marido, este procura acolhê-la, mas só consegue fazê-lo até certo ponto; quando julga o sofrimento da esposa muito elevado durante o desabafo, ele a medica com Valium.

Na minha opinião, esse é um ponto muito importante da história: toda vez que algum personagem- Rachel ou Louis - experimenta um momento de sofrimento, ele é medicado compulsoriamente! Em vez de deixar Rachel, já adulta e dotada de recursos simbólicos, expor finalmente seus sentimentos para elaborar tudo o que vivenciou, a princípio, Louis tenta interrompê-la com reticências piedosas: "querida, não precisa falar mais... é demais para você... está tudo bem agora..." Porém, ela intervém: "Preciso, Louis! Eu finalmente tenho coragem para falar, e vou falar até o fim!" E ela fala - em vez de escutar integralmente, ele intervém com medicação, e ela termina o relato com a voz pastosa e já destituída da carga emocional do início. 

Em virtude disso, podemos supor que não é Rachel quem não suporta essa situação - é Louis! Rachel não suporta a morte, mas enfim encontra coragem para expor sua experiência e realizar um trabalho de elaboração. Louis, que lidou com a morte enquanto médico, demonstra, do começo ao fim do livro, não suportar o sofrimento. Como pai de família e provedor, ele se coloca a todo o momento na situação de cuidar de Rachel como se ela fosse uma menina, embora uma menina capaz de cuidar dos filhos; ele não suporta o discurso dela. Ele precisa interferir, medicá-la, calá-la. O impacto do que ela conta demonstra ser muito maior nele do que nela - não é por acaso que ele introjeta a figura de "Oz, o Gande e Teível" (título da parte III do livro), que reverberá em sua mente quando levar a evitação da dor à últimas conseqüências.

Somos levados a crer, no início da história, que ele é uma figura mais forte do que ela; ele suporta o Simitério dos Bichos e até sente fascínio por ele; ele apóia o esclarecimento das crianças a respeito de terríveis verdades (como a morte). Rachel, por sua vez, detesta o Simitério, teme pelos pesadelos de Eileen e briga com Louis até dar um chilique ("agora a Rachel é a errada de novo"; "eu te odeio, Louis Creed!"). Enquanto ele parece sóbrio, maduro e equilibrado, ela parece incrivelmente traumatizada, frágil e infantil - e ainda parece inconsciente de que estará transmitindo desnecessariamente esse medo para a filha. Somos compelidos a ver em Rachel o elo mais fraco da família, incapaz de lidar até mesmo com a morte de animais domésticos.


O outro cemitério de bichos


Então, quando Rachel viaja com os filhos para Chicago durante um feriado e Louis permanece sozinho na casa, Church é atropelado. É Jud quem descobre o atropelamento e quem também oferece um desfecho alternativo para o caso. Não ocorre a Louis, em nenhum momento, recusar essa insólita alternativa.

Louis claramente parece aceitar a morte, mas não o inexorável sofrimento da filha Eileen diante da perda do gato; ele, que até então defendeu a verdade perante os filhos e que crianças poderiam lidar muito bem com a morte, parece incapaz de lidar com o sofrimento que a morte de Church acarretaria. O elo aqui mostra sua fragilidade, abrindo Creed para os mistérios para além do Simitério de Bichos - mistérios que prontamente Jud se oferece para mostrar. Jud desempenha um papel de guia para um Louis que se mostra, ao mesmo tempo, fascinado pelos mistérios de Ludlow e incapaz de lidar com o sofrimento. É esse fascínio pelo misticismo de Ludlow aliado a um temor pelo sofrimento que Louis desconhece em si mesmo a combinação perfeita para que o protagonista se torne o novo guardião dos mistérios concernentes ao Simitério.

Rachel não suporta a morte.

Mas é Louis quem não sabe lidar com o sofrimento.

Quando Ellie (Eileen) lhe pergunta o motivo de ter abandonado o antigo trabalho em Chicago, a resposta do pai é justamente não desejar lidar com o sofrimento acarretado pelo ambiente hospitalar. Contudo, ao se permitir ser atraído pelo lugar e enterrar Church para além do Simitério de Bichos - em um cemitério ainda mais antigo, o cemitério micmac -, Louis leva essa evitação da dor ao extremo. Até que ponto ele está evitando essa situação e até que ponto foi acometido pelas influências do terreno amaldiçoado? De certa forma, se concebermos um estranho externo, um Outro misterioso e antigo que habita o lugar, ele parece encontrar o estrangeiro interno que habita Louis e ao qual não somos apresentados nas primeiras páginas. Somos iludidos pela aparência austera do médico Louis.

É como se, ao passo que Rachel conhece a própria vulnerabilidade, Louis não tivesse consciência do pavor que o habita. Ele mesmo desconhece a própria vulnerabilidade, ocupado que está em desempenhar o papel de inabalável, vigoroso e sensato provedor dos Creed. Parece desconhecer tanto a si mesmo que enterra Church no cemitério micmac supostamente levado a evitar o sofrimento da filha - não o sofrimento dele. Louis é habitado, portanto, por um estrangeiro interno que encontra o estrangeiro externo daquela antiga região, há muito habitada pelo povo micmac.

Jud Crandall é o guia de Louis para os mistérios de Ludlow como um dia foi guiado pela mesma tentativa de evitar a dor acarretada pela perda de um objeto de afeto - no caso, seu cachorro, Spot.

O conhecimento dos segredos entranhados no território micmac parece ter penetrado os corações que procuram, a todo custo, evitar a perda, o sofrimento, o luto. 

Supostamente, Louis tenta evitar o sofrimento da filha, mas podemos ver que ele gosta tanto do gato quanto ela - e gosta também da filha. E podemos notar que o trauma de Rachel, quando por fim relatado, perturba-o profundamente. Mas ele se convence de que enterra Church no cemitério micmac e medica a esposa durante o desabafo para poupar respectivamente a filha e a esposa do sofrimento - e não ele mesmo.

Louis impede o penoso sofrimento do luto que leva à elaboração quando poupa a filha (ou a si mesmo) de lidar com a morte do gato. Ele reprime o sofrimento ao medicar Rachel quando ela relata os fatos que por tanto tempo a assombraram (e o perturbaram no ato). Por fim, ele tenta anular o sofrimento ao desenterrar o filho morto (Gage) em Bangor para enterrá-lo no cemitério micmac numa tentativa de reavê-lo.

Antes dele, Jud Crandall fez o mesmo com seu cachorro Spot; precedentemente a Jud, muitos outros homens enterraram seus animais no cemitério micmac, acometidos pela mesma expectativa.

A história nos conduz a pensar no quão terrível seria se realizássemos os nossos desejos mais profundos. Tal qual Édipo quando mata o pai e se casa com a mãe ou Midas quando é agraciado amaldiçoado com o toque de ouro, todas as pessoas que veementemente se opuseram ao imperativo da morte em Pet Sematary depararam-se com um cenário tenebroso. Os animais ressuscitados não eram os mesmos - algo sempre se perdia. Retornavam fedendo a lama, como se denunciassem constantemente o lugar ao qual de fato pertenciam, e pareciam, de certa forma, inanimados - com exceção do grande touro Hanratty, que se tornara traiçoeiro. 

Traiçoeiro como nossos desejos o são, caso fossem completamente realizados.

Quanto mais desviado de uma suposta ordem natural das coisas - quanto mais atrevido o desejo - piores as conseqüências. Mesmo diferentes, como se denunciassem a todo o momento que não deveriam estar ali, caminhando entre os vivos, os animais aparentemente não demonstravam nenhuma ameaça; contudo, quando os desejos mais profundos do forasteiro que nos habita se torna realidade, mostram-se mais terríveis que nossos pesadelos mais íntimos. Assim, temos a figura de Timmy Baterman, o jovem morto na 2ª Guerra Mundial e trazido de volta por um desesperado pai que o enterrou no cemitério micmac (segundo o relato de Jud Crandall); vem na forma da figura semimorta, fétida, cambaleante, que não apenas assombra Ludlow temporariamente com seu cambalear como profere sentenças hostis a todos que se aproximam. Um fantasma do jovem que ele foi, parece habitado por algo mais antigo e aterrador que assombra a superfície da Terra; seu olhar é completamente desumano. Se os olhos são a janela da alma, o Timmy que retorna do cemitério micmac possui um olhar desprovido de humanidade, convidando aqueles que o encaram a se depararem com os próprios estrangeiros internos. Um estrangeiro que contém os desejos mais inaceitáveis, que se atreve ainda a transpô-los para a realidade.

O Timmy ressuscitado não é Lázaro ou Jesus; é uma figura amedrontadora, desumana, distorcida e hostil que, em sua aparência, demonstra a todo momento como havia perdido a humanidade diante da morte; as palavras demoníacas que destila e as verdades distorcidas que profere demonstram como a realização de um desejo desesperado é também a concretização da pior aflição. 

E o quão distorcidos se mostram nossos desejos mais arraigados em relação à dimensão da realidade.

Quando Church retorna cansado e fedido, suscitando um estranhamento na família, Louis responsabiliza-se por ele; o comportamento arredio do gato passa a ser a sujeira que nosso protagonista deve varrer para debaixo do tapete. Church era seu segredo; era o seu desejo transposto ao plano da realidade - feio, distorcido, nojento, impensável, um tabu. Louis esconde o tabu da família da mesma forma como ocultamos nossos desejos mais inconfessáveis; ao mesmo tempo, o retorno de Church consiste numa anulação do sofrimento que sua morte acarretaria, de forma que o tabu oculto e a evitação do luto resultam numa zona de conforto aceitável para quem teme vivenciar o sofrimento. Afinal, entre ver Eileen lidar com a perda do gato e vê-la se frustrar aos poucos com Church - seja por seu fedor, seja por seu temperamento arredio - a segunda alternativa mostra-se mais tolerável aos olhos do protagonista.

E então Gage é atropelado pelo caminhão da Orinco. O motorista, sujeito tranqüilo, diz-se acometido por uma súbita vontade de pisar no acelerador; o menininho de dois anos, por sua vez, corre para a pista totalmente alheio ao perigo que se aproxima. Louis salta para salvar o filho, não conseguindo por um triz, para então vê-lo ser arrastado pelo caminhão. Suas roupinhas vão ficando para trás, esmagadas e ensangüentadas. Tudo o que resta a Louis é repassar obsessivamente essa cena em sua mente - só que, em sua fantasia, ele consegue salvar o filho.

A violência da morte de Gage, simbolizada pelo caixão fechado onde seu corpo é confinado, parece salientar a violência da realidade reincidente sobre um sujeito que, em sua história pessoal, demonstra não ter recurso para lidar com o sofrimento. Embora a morte aparecesse diante de si diversas vezes e contra ela lutasse enquanto médico, ela lhe parecia natural - já o sofrimento acarretado por ela, não.

Essa dura realidade quebra com a fantasia de provedor que fora imposta a Creed - e à qual ele aderira sem resistência. Quando Rachel sai de seu eixo, fragilizada pela dor, Louis é convocado por seus colegas de trabalho e amigos - inclusive Jud - a se impor como homem, macho alfa e adulto, e a proteger a mulher. A impotência em que se encontra é motivo de exasperação e vergonha para esses homens - a masculinidade dele foi fragilizada. Em vez de se recompor e assumir o controle da situação com um filho morto, uma filha desamparada e uma mulher ausente da realidade, ele sucumbe à mesma situação de desamparo do restante da família. O sr. Creed não é mais o provedor sensato e austero da família, o suporte racional de Rachel - ele se mostra impotente. O rei está nu.

E é nesse momento em que ele pensa: por que tem de ser ele o eterno consolador? Será que ele não pode se sentir desamparado? Enquanto Rachel foi medicada até o talo e mantida em casa até que recobrasse condições psicológicas para se trocar sozinha e ir ao funeral do filho, foi Louis quem recebeu todos os convidados e foi convocado socialmente a todo momento para representar a família e dar suporte a ela. Acredito que aqui a gente vê o que o construto da masculinidade representa em nossa sociedade e o quão postiço, ilusório e insustentável ele é. Louis aderiu até então com tanta veemência a esse imperativo que somos iludidos pela convicção de que ele é capaz de sustentá-la; o problema é que a masculinidade não aceita aspectos concernentes à natureza humana, como a situação de desamparo, prostração e passividade em que somos colocados freqüentemente pela vida.

Louis colocara-se como responsável pela manutenção do segredo de Church. Mas ele não se sentia responsável pela morte do filho - como poderia? Será que ele não tinha o direito de se sentir tão desamparado quanto a mulher? Ele não tinha o direito de sair dos eixos, de não saber se vestir sozinho e de ficar em casa dormindo à base de calmantes, tentando esquecer o que lhe havia acontecido?

[E sentir a dor imensurável de calcular que, por uma fração de segundo, seus dedos não agarraram o filho antes que o caminhão o pegasse.]

Aparentemente, não tinha esse direito. Quando são, Louis adere ao imperativo da masculinidade, sendo o suporte da casa, impondo-se diante do pai de Rachel (com quem possui desavenças), tomando decisões pela família. Ao demonstrar não poder ocupá-lo satisfatoriamente no momento de desamparo, é negligenciado por amigos (Jud), colegas (Steve Masterton) e conhecidos, além de ser humilhado pelo pai de Rachel. Todo o contexto parece estimular Louis a não lidar jamais com a situação de passividade humana e, mesmo ligeiramente ciente do próprio direito ao desamparo ocasionado pela morte do filho, ele se vê sozinho, imaturo e inexperiente demais para lidar com a dor e com tudo o que reprimiu por tempo demais.

Ele simplesmente não parece dispor de recursos para sofrer imensa e passivamente e elaborar a dor.

Seu repertório parece se situar mais no âmbito de corrigir erros e tapar buracos.

Então, aquilo que é reprimido mais intensamente retorna com mais violência. Não é de estranhar, portanto, que o elo mais frágil da família a ser possuído pela maldição micmac (o estrangeiro externo) seja aquele que parecera ser o mais inatingível - o homem da casa. O homem, o suporte da família.


Hey, ho, let's go!


Mais para o final do livro, percebemos como Rachel se fortalece, apesar dos medicamentos impostos a ela; ela parece aceitar o fato da morte e a curiosidade da filha em relação ao assunto, mostrando-se muito mais tranqüila e madura em comparação à ansiosa Rachel do início. Diante da perda de Gage, ela afirma a Louis querer estar ao lado dele para um ajudar ao outro; ela aceita o sofrimento dos dois e quer suportá-lo conjuntamente. Então, após os primeiros tempos de desamparo, ela parece capaz de se reerguer para cuidar da filha que restara. E que, por sinal, demandava cuidados - é uma menininha de cinco anos.

Mas Louis não havia se recuperado. Na realidade, o impacto daquele acontecimento foi tão intenso que ele se sentia convocado a não lidar com esse sofrimento. Na realidade, ele demite o sofrimento: em lugar do luto, vem a certeza de que trará Gage de volta por meio do cemitério micmac. É a maldição do lugar unindo-se ao estrangeiro interno de um Louis imaturo demais para lidar com o trabalho do luto. É a maldição do lugar que acomete não a traumatizada irmã de Zelda, mas o inabalável patriarca da família Creed.

Será que podemos atribuir também a capacidade de lidar com o luto com o acolhimento que se recebe nos momentos de desamparo? Percebemos que Rachel é cuidada de todos os lados, ao passo que a Louis não é dada a mínima confiança. Se combinarmos fatores como história de vida, desenvolvimento da personalidade e, por fim, o acolhimento ante a terrível circunstância, o prognóstico pode justificar a recuperação de uma fortalecida Rachel e desalento de Louis.


Dessa forma, Louis dá vazão ao seu anseio mais desesperado, que é ter o filho de volta - mas esse retorno vem distorcido de tudo o que sonhara, mais uma vez confirmando que existe um abismo intransponível entre nossos desejos mais inadmissíveis e o plano da realidade; assim, ele não traz de volta o filho, mas uma maldição. Louis ainda tinha ao seu lado a filha Eileen, a esposa Rachel e seu amigo Jud, mas ele abre mão desse fato para se entregar à sua absurda obsessão; o retorno desta à realidade, portanto, culmina na coisa que veste a pele de seu filho e que assassina Rachel Creed e Jud Crandall.

Possivelmente possuído por uma súbita e pulsante noção de realidade - um raio de sol nas sombras de uma mente profundamente perturbada - ele compreende a gravidade do que fez ao profanar o túmulo de Gage em Bangor e enterrar seu corpo tenro no terreno amaldiçoado; ele compreende os avisos que vêm por todos os lados sobre a praga que atraiu para si e parece determinado a reparar os danos que ele mesmo havia provocado. Contudo, ao lidar com o espetáculo no interior da casa de Jud - seu melhor amigo e sua própria esposa mutilados e parcialmente devorados por esse novo e teível Gage -, Louis é convocado novamente a lidar com um sofrimento para o qual não se sente apto. Ele elimina a coisa que possuíra o corpo de Gage, mas não sabe o que fazer em seguida. 

Ele já se sentia desamparado ao perder Gage. Agora, havia perdido não só o filho para sempre como também Rachel e Jud - e se a morte de Gage foi um golpe traiçoeiro do destino, as outras duas ocorreram em virtude de seu próprio desatino, integrando seu rol da culpa. Como suportar isso se já não havia suportado a primeira perda?

Completamente sóbrio e ciente das conseqüências de seus atos, ele também lida com a própria impotência; diante do corpo sem vida de Rachel, nada lhe ocorre a não se ser sentar-se encolhido contra a parede e, para completar o cenário de debilidade, chupar o próprio dedo. Ele incorpora a criança aflita e impotente que o habita naquele ápice de desamparo e assim permanece por duas longas horas, até demitir entorpecidamente a sanidade de sua mente - e assim se despedir da impotência e do sofrimento.

Entra em cena, novamente, o encontro desse estrangeiro interno que o habita e a sedução do estrangeiro externo - a maldição micmac.

Como a realidade é dura demais - cada vez que ele emerge nela para contemplar as conseqüências de seus atos, tudo se mostra ainda pior - Louis finalmente abandona o estado infantil juntamente com a sanidade e se levanta: há muito trabalho a fazer.

"Hey, ho, let's go" é a trilha sonora eleita por Stephen King, homenageando sua banda preferida, para compor esse cenário de desintegração existencial.


"Você pode ouvir sons - disse Louis - Sons parecidos com vozes. Mas são apenas as gralhas ao sul, lá para os lados de Prospect. O som chega até aqui. É engraçado."


Assim, cantarola baixinho enquanto espalha álcool pela casa e toca fogo; então leva o corpo de Rachel para fora, enrolado num lençol.

É Steve Masterton, seu amigo médico que o convocou a desempenhar o papel masculino e provedor, que entra em cena; ele aparece em sua moto, decidido a ver como estaria a família Creed, mas tudo o que encontra é o incêndio deflagrado na casa vizinha (casa Crandall), um conjunto de pessoas atraídas pelo fogo e uma discreta mancha branca nos bosques atrás da casa dos Creed - o lençol onde se encontra Rachel. Acometido por uma força que se impõe à sua consciência, ele corre atrás de Louis, ignorando o incêndio e a multidão. Chega ao Simitério de Bichos sem entender onde se encontra, como ou mesmo por quê - e vê Louis carregando o corpo ensangüentado de Rachel por uma traiçoeira pilha de árvores mortas com uma habilidade hipnotizante.

A mesma força ancestral que há muito se apossara de Louis faz cócegas na mente de Steve, convidando-o a participar do espetáculo macabro; ele é tentado por ela, escala os troncos caídos e conversa com Louis - mas logo recobra a consciência e foge dali. À medida que corre, tudo o que brevemente se passou ecoa como se fosse um sonho e, na altura em que chega ao seu apartamento em Orono, sequer se lembra de que fora a Ludlow. De fato, a curta experiência por que passara retorna apenas nos sonhos mais profundos, aqueles vivenciados nas últimas horas antes do amanhecer - sonhos em que uma sombra gigante, de olhos amarelados, inumana, parece se esgueirar até ele e, no último momento, é então repelida.

Um ano depois, Seteve Masterton é remanejado para um hospital em outro estado e nunca mais retorna ao Maine ou a Ludlow.

Em outras palavras, Steve Masterton não dispõe de recursos simbólicos para traduzir o que lhe acontecera, isto é: as mensagens recebidas no Simitério dos Bichos. Essas mensagens ecoaram em sua mente como ruídos incompreensíveis que, tão logo foram recebidos e incompreendidos, permaneceram confinados nos compartimentos mais obscuros de sua memória, beirando à inconsciência - para retornar apenas em sonhos. Ele não fora introduzido por um guia ao Simitério de Bichos como Louis o fora e muito menos ao Cemitério Micmac. As instruções que um insano e robótico Louis lhe transmitia - subir pelos troncos sem medo de cair, ignorar o ruído engraçado das gralhas ao sul, pelos lados de Prospect - consistiam num mero burburinho para uma mente que não fora iniciada nos mistérios guardados pelo lugar. 

Ele ouvira, mas não compreendera - e certamente não processara.

Louis comete o mesmo erro três vezes: primeiro, enterra Church; depois, Gage; a história se encerra ao enterrar Rachel. É uma repetição quase obsessiva de um mesmo ritual que parece tentar reparar os acontecimentos anteriores - a cada tentativa de reparação, um pouco de Louis também se esvai, caindo no esquecimento, até não restar mais nada de si. Esse fato se reflete em sua aparência envelhecida - à medida que sua vida interior se esvai, a exterior a acompanha. A ponto de, no final, seus pensamentos resumirem-se a sentenças soltas proferidas por Jud e pelos sujeitos iniciados antes dele aos mistérios micmac - sentenças perpetuadas por gerações e pertencentes não a Louis, mas ao cemitério que dele se apossara. O Louis que mantém pensamentos robóticos, curtos, repetitivos, irrefletidos e o corpo cansado e envelhecido é o Louis que abandonara a realidade para se entregar exclusivamente aos seus desejos inconfessáveis, infantis, ancestrais, primitivos - primitivos como os desejos guardados pelo cemitério.

Não podemos dizer que Louis - bem como outros antes dele - fora fraco em realizar tais ações. O que torna a história tão tenebrosa e impressionante é a natureza complexa e humana das personagens envolvidas, convocando-nos a nos identificar com seu sofrimento e até mesmo com suas decisões e a compreender o poder das tentações oferecidas pelo cemitério micmac. Os desejos infantis e primitivos de Louis de preservar uma onipotência que soluciona e elimina o sofrimento habitam todos os seres humanos.

É válido ressaltar que a maldição a habitar aqueles domínios - por vezes, criando forma, por vezes, não - é o mítico vendigo. Essa criatura da mitologia indígena norte-americana surgia de invernos rigorosos e funestos, em que membros dos povos locais - ou mesmo peregrinos - praticavam o canibalismo para sobreviver. O sujeito que se alimentava de outro ser humano tornava-se mais forte, mais veloz e mais voraz, mas a um preço terrível. A presença dessa criatura azedara o cemitério indígena, de modo que ele foi abandonado pelos micmacs - e isolado pela barreira de troncos para desestimular os habitantes de Ludlow (e região) a procurar alívio nas promessas oferecidas pelo lugar. É um lugar antigo, cheio de histórias, segredos e tentações muito mais ancestrais que os próprios micmacs, cujo símbolo mais recente desse segredo é essa figura mítica.

O canibalismo, simbolicamente, parece consistir no impulso mais primitivo da fantasia humana - o desejo de tudo devorar e de tudo possuir. É um impulso que recusa uma realidade externa ao sujeito, posto que esse desejo é o de absorver o mundo, tomá-lo como parte de si num estado de onipotência. O desejo de devorar, de absorver o outro, é também o desejo de eliminá-lo e de se bastar, ser único e, portanto, mais forte. O ato de eliminar o outro para então tragá-lo - ritual formador do vendigo - simboliza o desejo de aniqüilar o mundo em proveito de si mesmo, e a conseqüência de se criar uma criatura mais forte, veloz e constantemente faminta consiste na concretização desse estado de poder supremo.

[Em uma breve digressão, não deixaremos de pensar em rituais antropofágicos e nos vilões de muitas histórias, como Dragon Ball, que absorvem seus inimigos e se tornam mais fortes em decorrência disso - a exemplo de Cell e Majin Boo.]

Uma vez que o solo micmac testemunha a ascensão dessa criatura, ele passa a convocar sistematicamente corações debilitados a repetir esse ritual de plena satisfação das próprias fantasias - tendo em Louis Creed seu mais recente convidado.

Que é acometido pelo canto da sereia - ou cântico do vendigo.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

5 músicas em língua estrangeira


Conheci uma pessoa poliglota que possuía uma reverência por diversas culturas - ocidentais e orientais. Ela escutava todo tipo de música - compreendendo ou não do que se tratava! E eu achava isso fantástico. Adorava o modo como ela era aberta para novos estilos musicais, entendem? Às vezes, internalizamos tantos preconceitos! E inventamos desculpas para desqualificar um tipo de música que esteja fora de nosso círculo social/cultural.

Então vinha essa garota e, com a carinha mais boa, escutava de tudo! Um dia, mandei um dos meus cantores nacionais preferidos - Geraldo Azevedo (que voz!) - para ela ouvir. Ela tinha gostado de outra música dele, na verdade, mas aceitou prontamente a que mostrei. Dias depois, comentou comigo que não parava de ouvir a que eu tinha mandado.

Anos depois - em 2016 - peguei-me ouvindo minha playlist. Então vi que ela havia se tornado "polilingüística" também! hahaha

Para quem só ouvia música nacional dez anos atrás - intercaladas por um Beatles aqui e um ABBA ali - até que mudei bastante! :D

E isso é tão bom - quando você descobre se tornar o tipo de pessoa que você gostaria de ser! Eu pego muita sugestão alheia, muita mesmo, quando o assunto é música. Não tenho o dom de descobrir músicas pouco conhecidas - sei que poucas pessoas que conheço escutam música celta, mas, de toda forma, não tenho essa facilidade que alguns amigos e o namorado têm de descobrir aquela banda antes que ela viralize.

O namorado me manda algo que possui menos de mil visualizações no youtube.

Meses depois, o mundo inteiro a conhece. Foi o caso de Mumford & Sons e Awolnation.

No final das contas, minha playlist contém exclusivamente aquilo de que realmente gosto - e que é um mosaico particular de tudo o que pessoas ao meu redor me mostram. E um pouco do procuro por conta própria.

Em homenagem a essa pessoa que conheci - e também aos amigos que apresentam músicas boas - fiz uma lista contendo músicas em línguas estrangeiras! Como nós, brasileiros, ouvimos muita música em inglês, excluí essa língua da parada também! :)

Não deixa de ser também uma homenagem ao meu nome - "Bárbara" quer dizer estrangeira. E é uma sensação que tenho sempre comigo.

1. Mon amour, mon ami - Marie Laforet



2. Senza Riserva - Annalisa



3. Gaia - Faun 

[Parece que é cantada em grego antigo, embora alguns gregos dos comentários deste vídeo não consigam discernir o que é dito.]



4. Ichirin no Hana - High and Mighty Color

Contém um pouco de inglês, como costumar aparecer no estilo J-pop!

5. Ворожи - Мельница

Sim, está escrito em alfabeto cirílico. Essa música é muito linda!



E vocês? Costumam ouvir algo de origem estrangeira?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O medo de ser incompetente na vida


Acho que esse post poderia ser uma continuação do que inaugurou 2016 porque faz parte da vibe na qual tenho embarcado. É mais uma daquelas vivências acompanhadas de reflexão, entendem?

Você tem que viver para crer e refletir para entender.

Tenho recomendado aqui no AQTUL alguns vídeos e, por se tratarem de palestras longas e densas, nem sei mais se o tema que quero abordar neste post aparece num desses que recomendei a vocês - em todo o caso, explico do que se trata: a Maria Rita Kehl, em uma de suas fabulosas palestras, fala sobre o medo de ser medíocre.

Basicamente, ela reflete, como uma boa psicanalista, sobre como funciona o modo de pensar humano. Segundo ela, muitos de nós acabamos deixando de produzir ou de realizar nossos sonhos por medo da mediocridade. Em outras palavras: mantemos em nossas mentes  nosso desejo de criar ou produzir algo; queremos pintar, queremos tocar algum instrumento, cantar, dançar, construir algo interessante, criar algo - mas deixamos de fazer e ficamos apenas sonhando com o dia em que fizermos e sobre como isso será magnífico.

E aqui ela pondera: por vezes, deixamos de concretizar algo pelo medo de nos descobrirmos piores do que supúnhamos - e se nós fizermos aquilo que tanto queremos e tanto amamos e descobrirmos que, afinal, não somos tão bons assim? E se formos apenas medíocres?

Essa psicanalista comenta que a História Mundial nos apresentou verdadeiros monstros das artes, da filosofia e das ciências - como Mozart - e que nos imaginamos tão bons quanto eles - não exatamente mundialmente reconhecidos -, mas que nós mesmos nos reconhecemos sonhadoramente como excelentes, dotados de um talento tão impecável quanto o desses gênios. Temos nós mesmos em alta conta, como se persistíssemos em nos ver soberbos naquilo que temos tanto carinho em fazer, embora não o façamos de fato. No ápice da nossa imaginação narcísica, é assim que nos enxergamos, mesmo que não declaremos isso ao outro. Mas... e se não formos essa última batatinha do pacote?

E se fizermos algo que não for bom?

E se fizermos algo que seja apenas... medíocre?

Medíocre, palavra que deriva de "média" - algo que se encontra na média, isso se não for muito aquém. A idéia de ser meramente mediano em uma sociedade individualista formada por milhões e milhões de pessoas é, com toda a certeza, de uma frustração sem precedentes para alguém em cuja imaginação era, até então, um gênio inigualável.

Em nossas cabeças, somos um verdadeiro supra-sumo de potencialidades inexploradas.

Na dimensão da realidade, entretanto, a coisa muda de figura. Os gênios são poucos, e os reis estão nus.

Lembram-se daquilo de que eu estava falando no outro post - sobre como a nossa memória procedural é mais "lerda" que a semântica? Sobre como teoricamente sabemos nadar, dirigir, andar de bicicleta, montar numa vassoura (não é, Hermione?), mas que, na prática, a coisa muda de figura? Afinal, não se aprende exatamente a fazer essas coisas lendo-se um livro - como lembrou J.K. Rowling em A Pedra Filosofal.

Assim é a vida - e assim são as coisas que amamos fazer. Podemos descobrir que nosso trabalho executado em uma vida inteira é, na realidade, apenas mediano e assim confrontar a triste realidade que se opõe a nossas convicções mais egocêntricas. Não somos tão bons quanto queremos acreditar.

Triste destino (e desatino) esse de nos tornarmos medianos quando, em nossas cabeças, somos simplesmente imortais.

Por isso, não dá para culpar aqueles que apenas vivem de sonhos (em vez de realizá-los), não é verdade? Preservam a própria soberania naquilo que tanto prezam!

Talvez - contudo, porém, todavia, entretanto - exista uma inquietação lá no fundo, uma dorzinha existencial de caráter crônico, profunda, irritante e quase imperceptível de algo em suas (ou nossas) cabeças dizendo: "soberano você é no campo das idéias... mas não é na realidade."

O pé que está situado na realidade permanece intacto, sôfrego e destituído de realizações, enquanto a cabeça obtém a excelência no campo das idéias.

Aí entra a "parte II" da história, que nem quando "O Retorno de Jedi" veio para dar um final feliz a "O Império Contra-ataca"; essa parte II vem com a seguinte máxima: o constante exercício leva à perfeição.

Você sonha em fazer algo; vai lá, faz e não fica tão bom. Na realidade, "tão bom" é eufemismo: fica chinfrim, sofrível. Você torce o nariz ou deixa como está - dá para o gasto. Sabe que falta algo - mas não sabe dizer o que - e deixa por isso, mesmo.

Então vou contar um segredo: é para ser assim. Tem que ser chinfrim. Porque é a primeira vez que você faz isso.

Tem que ser chinfrim, mesmo!

Primeiros acordes no violão?

Primeira apresentação da banda!

Primeira audiência no tribunal.

Primeira pintura a óleo!

Primeiro croqui.

Primeiro livro escrito.

Primeira composição.

Primeira organização de tarefas.

Primeira saia feita à máquina, sem bordado.

Primeira escultura de argila.

Primeira planilha funcional no Excel.

Primeiras lâminas histológicas.

Primeiro atendimento.

Algumas primeiras vezes serão fugazes; em outras, investiremos muito tempo em sua consolidação, perfeccionistas que somos. Ajeitaremos aqui e ali, de acordo com nossa velocidade e tempo de dedicação, até dar para o gasto - e, convenhamos, nem ficará tão bom assim. Mesmo que elogiem - ou que não falem nada e guardem aquele silêncio fúnebre e hesitante, carregado de significação - saberemos, bem lá no fundo, que falta algo. Mas, por alguma razão, não conseguiremos melhorar ali, naquele instante - foi o que deu para fazer, afinal.

É o que tem para hoje - disse-me um amigo, alguns anos atrás.

E então, por força do destino ou do pensamento, seremos convocados a realizar a mesma tarefa algum tempo depois - horas, dias ou mesmo um ano -, e então pensaremos em outras formas de realizar aquela mesma tarefa e em maneiras de melhorá-la; porque nosso cérebro passou todo aquele tempo trabalhando em stand-by, tentando resolver o que ficou incompleto. E seremos surpreendidos pelas maravilhas que a linearidade do tempo nos traz, que é o aperfeiçoamento de nossas habilidades. Simplesmente faremos melhor, com mais desenvoltura, mais beleza e mais completude! E, se fizermos por tempo ou em quantidade suficientes, seremos mestres naquilo.

Depositaremos nossa centelha única e individual nesse feito; saberemos esboçar uma parte de nós mesmos, fazendo essa coisa à nossa imagem. Talvez não sejamos exatamente um Mozart no assunto, mas quem se importa?

Quando nos descobrimos cada vez melhores naquilo que tanto amamos, a notoriedade é o que menos importa. Porque, naquilo que fazemos, encontramos um sentido - nós produzimos um sentido.

E Mozart pode ser simplesmente maravilhoso, mas o que seria do mundo se todos os outros músicos de todos os outros tempos deixassem de fazer o que fazem (ou fizeram) simplesmente porque não são (ou foram) tão geniais? Ainda bem que Faun não temeu a própria inferioridade, ou eu não teria o prazer de escutá-los como estou fazendo enquanto escrevo este texto.

A propósito:

- Unda não é exatamente uma Flauta Mágica, Bárbara.
- Mas é o que estou ouvindo agora, e é lindo.

Aquilo que é feito no plano da realidade sempre serve a alguém.

Então, quando me perguntam "mas e se não ficar bom?", respondo "quem disse que tem que ficar bom?"

(E eu digo isso para mim mesma, inclusive.)

Apenas faça. Acolha seu trabalho (mesmo aquém do esperado) como a um sujeito doente e cuide dele até se convalescer - porque isso acontecerá, já que você não desistirá enquanto não acontecer. Trate dele, limpe os ferimentos, troque as bandagens, permita que seu trabalho possa se recuperar.

Quando vi essa palestra da Maria Rita Kehl, senti um frio na boca do estômago porque a pergunta dela era certeira: "e se nos descobrirmos medíocres?" E foi jogada ao público e deixada em aberto de forma que parecia não haver solução para essa triste realidade; foi exposta, na minha opinião, como uma ferida aberta que não cicatriza. Era uma pergunta polêmica e aparentemente sem resposta, cujo objetivo consistia em fazer com que os espectadores se deparassem com seus receios mais profundos - foi como abrir o sujeito durante uma cirurgia e largá-lo aberto, sem realizar os pontos. 

Como se não houvesse saída!

Então me lembrei de todas as coisas que fiz sem medo simplesmente porque ou não eram tão decisivas para a minha existência ou era necessário que eu fizesse naquele prazo, sob pressão externa - e vi o quanto me aprimorei nelas. As primeiras, segundas e terceiras vezes davam para o gasto, mas o tempo trazia essa mágica que era me permitir o aprimoramento. Isso aconteceu com meus desenhos desde a infância; aconteceu com meus planejamentos de estudos, de carreira, de vida; até mesmo as planilhas de organização que faço hoje são muito melhores que as do ano passado. Até mesmo meu blog, ainda amador, está bem melhor que sua versão original. Minha escrita melhorou bastante em relação à que mantinha durante a adolescência.

Tudo melhora simplesmente porque nunca deixamos de aprender.

Então você está, neste exato segundo, diante da chance de fazer aquilo que mais valoriza em si mesmo, mas procrastina ou inventa desculpas; daí, finalmente, está entendendo que enrola devido ao famoso medo de "dar errado" - nesse caso, eis um conselho: lembre-se de todas as primeiras vezes medíocres e erradas que você teve e das vezes muito melhores que se seguiram a elas. E perceba que o dom de melhorar não é privilégio apenas de outros.

Créditos da imagem: Jenny Yu.